Entrevista14/12/2008

O Brasil mostra a sua cara

Executivos do Grupo CDN explicam estratégia de divulgação de informações relacionadas ao país no exterior

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por Wanderson Flávio Cunha

 

Mesmo em tempos de apuração dos efeitos da crise financeira mundial no país, as notícias de fim de ano são as melhores possíveis para o Grupo CDN. Recém-escolhida pela Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom), do governo federal, em uma disputa com grandes agências de relações públicas, como FSB, Publicom, Burson-Marsteller, Santa-Fé, Máquina da Notícia e In Press Porter Novelli, a CDN Comunicação Corporativa se prepara para “vender” a imagem do Brasil no exterior. A conta, de R$ 15 milhões anuais e que pode ser sucessivamente renovada até o fim de 2013, serviu para consolidar a posição de liderança da empresa de relacionamento com públicos-alvo. O presidente e fundador, João Rodarte, e um de seus sócios e vice-presidentes, Andrew Greenlees, receberam no escritório paulistano do grupo a Marketing para falar sobre o mercado de comunicação empresarial e, em particular, a respeito dessa conquista.

 

 

 

 

 

 

Marketing – Vocês concorreram com importantes agências de relações públicas no Brasil. Como foi participar dessa disputa?

João Rodarte – Nós sabíamos que seria muito difícil. Todas as empresas que entraram na concorrência estavam associadas a parceiros internacionais. Então resolvemos investir muito, tanto nós quanto nossa parceira internacional Fleishman-Hillard. Nosso custo estimado para o trabalho nessa concorrência beira os US$ 300 mil. Um investimento muito alto, que se justificava por causa da importância da conta. Nossa proposta tinha cinco volumes, totalizando 1.250 páginas. Como empresa líder de mercado, a vitória nos consolidaria na posição; a derrota nos colocaria atrás de um de nossos concorrentes.

Marketing – Como vai ser o trabalho da CDN a partir de agora?

Rodarte – Estamos em uma fase de planejamento. Durante a concorrência, por mais que tivéssemos um modelo teórico de gestão das ações, tudo estava alinhado para efeito do edital. Agora não, pois a Secom está montando uma equipe interna e nós também estamos estruturando a nossa. Temos uma série de reuniões programadas para os próximos meses, inclusive com representantes da Fleishman-Hillard. Nós devemos assinar o contrato com o governo na primeira quinzena de dezembro, quando começaremos a trabalhar, efetivamente.


 

Marketing – Quantas pessoas estarão envolvidas nesse trabalho?

Rodarte – Nós temos um núcleo fixo que vai ficar dentro da Secom, com no mínimo sete pessoas. Também vamos ter pessoas que vão trabalhar nos Estados Unidos, na Ásia e na Europa. Além disso, profissionais das estruturas da CDN e da Fleishman-Hillard vão participar desse projeto, mas não em regime permanente. Estimamos que ao longo do processo cerca de 50 pessoas estarão envolvidas no dia-a-dia do trabalho.

Andrew Greenlees – É importante lembrar que a Fleishman-Hillard é uma grande empresa, com atuação global. E essa foi uma das exigências presentes no edital de licitação. A sede dela fica em Saint Louis, mas os escritórios principais estão em Washington, Nova York e Miami.


 

Marketing – Quais são os países em que vocês vão atuar?

Rodarte – Em uma reunião recente, conversamos a respeito disso. Teremos de focar países nos quais possamos obter um retorno do trabalho e capacidade de avaliar os resultados. A França é um caso exemplar. Nós teremos pela frente o Ano Brasil-França, com uma série de atividades por aqui. Anos atrás já aconteceu o Ano Brasil na França. Ou seja, eles conhecem bem o Brasil. A França é um país em que temos a possibilidade efetiva de ampliar os negócios entre os dois países. Um trabalho de comunicação dará uma maior sustentação para isso. Então vamos fazer pesquisas para saber como está hoje a imagem do Brasil na França, quais são os canais que formam a opinião dos empresários, dos políticos e dos formadores de opinião em geral. A partir daí, vamos atuar sobre esses meios. Ao fazer isso, nós estabeleceremos ao longo do ano um processo com foco e de fácil verificação de resultados. A Secom está muito preocupada com isso, porque não adianta desenvolver um trabalho sem ter como comprovar resultados.


 

Marketing – A definição dos países em si será uma parceria da Secom com a CDN?

Rodarte – De certa forma sim. Mas a determinação é da Secom. Nós vamos discutir com ela sempre. A exemplo da França, que já conversamos, por ser mais óbvio e evidente, os Estados Unidos seguramente são um país que também está na rota.

Greenlees – A idéia é ter uma presença forte também em Bruxelas, por conta da irradiação na Europa, já que é a sede do Parlamento Europeu e da Comunidade Européia. Na medida em que nossa linha de trabalho será a divulgação do Brasil no exterior, com foco em atração de investimentos, não poderíamos deixar a capital da Bélgica à parte.


 

Marketing – Então vocês não pretendem divulgar o Brasil como país turístico?

Greenlees – Isso já é feito muito bem pela Embratur. Queremos atrair investimentos para o Brasil, apresentar o país como uma opção de economia e democracia estáveis. Uma das variáveis que irá orientar a escolha dos países é justamente o interesse por investimentos externos. Os Estados Unidos e a França já têm essa tradição; Espanha, Itália e Alemanha, também. Todos eles, com presença na economia brasileira. Pretendemos ampliar essa participação.

Rodarte – A verdade é que o Brasil, nos últimos anos, melhorou muito, em todos os aspectos. O país tem mais estabilidade, mais democracia. O processo de eleições diretas que nós tivemos, desde o governo militar, está bem consolidado. Podemos, até comparando com os outros países da América do Sul, colocar o Brasil em posição de destaque, com um histórico de democracia bastante forte, além, é claro, das melhorias sociais e institucionais. Houve um salto de qualidade. Em alguns lugares no mundo, que contam com correspondentes ou equipe mais forte de comunicação, a opinião pública acompanha essa evolução. Mas isso não é generalizado. A gente pode dizer com alguma segurança que a imagem do Brasil não é tão boa quanto o Brasil está. Existe um “gap” para ser combatido. Vamos atuar aí. Precisamos melhorar a imagem do Brasil para atingir o ponto da realidade. Definitivamente, não iremos divulgar programas de governo ou atuação de governo. Esse não será o nosso trabalho. Faremos, sim, a atualização dos formadores de opinião sobre a situação hoje do Brasil, em níveis educacionais, sociais, econômicos e jurídicos. Vamos promover essas vantagens competitivas que o Brasil tem hoje no cenário global.

 

 

 

* O texto completo desta reportagem você confere na edição impressa da revista Marketing, publicada em novembro de 2008.