Estudos ESPM1/2/2010
Sintaxe da linguagem cromática
Relacionando Estudos de Cor ao Modelo de Percepção Visual Sens-Org-Int
*Paula Csillag é professora da ESPM e pesquisadora do Centro de Altos Estudos da ESPM (CAEPM), onde desenvolve pesquisa sobre a percepção visual da cor.
Sintaxe da Linguagem Cromática:
Relacionando Estudos de Cor ao Modelo de Percepção Visual Sens-Org-Int
Quando se prepara qualquer peça de comunicação usando cores, logo vem as dúvidas: Qual(is) cor(es) usar? O que elas comunicarão? Cor é cultural ou é fisiológica? Ou ambos? Se ambos, quais suas interfaces? Essas questões, importantíssimas para a produção e análise de comunicação visual, são tratadas aqui a partir de um modelo que foi elaborado pela presente autora. Trata-se de um modelo de percepção visual denominado de Sens-Org-Int, que encontra-se na Figura 1.
O intuito principal deste modelo é diferenciar os conceitos e princípios de design e linguagem visual, que tendem a ser generalizáveis a todos os seres humanos com visão normal, daqueles conceitos e princípios que não tendem, uma vez que são culturais, aprendidos ou interpretados de alguma forma pelo observador. Além deste, há um outro motivo para a elaboração deste modelo que é a intenção de unificar a interdisciplinaridade do estudo da percepção. Encontram-se estudos sobre percepção visual advindos de diferentes disciplinas, como psicologia, neurologia, design e artes. Mesmo dentro da mesma disciplina, como, por exemplo, a psicologia, há diferentes abordagens para explicar a percepção, como as abordagens analíticas e sintéticas. O presente modelo unifica não somente essas diferentes disciplinas como também as diferentes abordagens, com o intuito de poder compreender melhor a análise e a produção de imagens. As variáveis intrínsecas ao modelo são: V1, V2 e V3, respectivamente explicadas a seguir.
A variável V1 está relacionada com informações recebidas pelo olho, antes de atingir a retina, e, portanto, antes de se iniciar o processamento neuronal. Durante o processamento V1, a luz ainda não foi convertida em sinais neurais. Essa variável refere-se às impressões sensoriais (Sens).
A variável V2 refere-se aos aspectos da percepção visual que ocorrem a partir da retina e principalmente na zona occipital do cérebro, constituindo o que se chama processamento primário da visão. Essa variável está relacionada com as abordagens “bottom-up” da psicologia sobre percepção visual. Os fenômenos da percepção visual que ocorrem como V2 são os que podem ser considerados “leis” em design e arte, assim como foram denominadas as leis da Gestalt. No presente modelo a variável V2 recebe a denominação de fenômenos organizativos das imagens no cérebro (Org).
A variável V3 está relacionada com a elaboração de V2 a outras áreas do cérebro. Esta variável refere-se às abordagens “top-down” da psicologia sobre percepção visual. É nesta fase da percepção que ocorrem as cascatas neurais, que recebem interferências de motivação, emoção, personalidade, cultura, conhecimento, etc. É este aspecto da percepção que propicia variação e interpretações em design e arte, e que no modelo proposto, recebe o nome de processos interpretativos da percepção (Int).
Estudos de Comunicação Cromática Relativos à Variável Org
Expoentes no estudo cromático JOHANNES ITTEN (1973) e JOSEPH ALBERS (1974), demonstram em suas obras uma preocupação nítida em transmitir como princípios de comunicação cromática, aqueles fenômenos referentes aos contrastes cromáticos e às percepções obtidas a partir das interações de cores. À luz do modelo Sens-Org-Int, estes fenômenos dizem respeito exclusivamente à variável Org, ou seja, são fenômenos cromáticos que tendem a ser generalizáveis e por isso podem ser compreendidos como princípios gerais de comunicação cromática, independente de aprendizado, cultura ou interpretação.
O estudo dos contrastes cromáticos advém do legado de GOETHE (1970 [1840]), CHEVREUL (1987 [1854]), HELMOLTZ (1925), entre outros autores que ficavam intrigados com as variações na percepção humana da cor a partir de variações nas disposições e adjacências de cores dispostas diante do olho. Esse autores não estavam satisfeitos com as explicações cientificistas da física (principalmente newtoniana) da cor para compreender a percepção humana da cor. Acredita-se aqui, importante ressaltar, que a contribuição de Newton para a compreensão da natureza da cor como luz foi fundamental, e que Newton ainda teve a humildade de reconhecer suas limitações, não arriscando qualquer especulação sobre “os modos ou ação pelos quais a luz produz em nossa mente os fantasmas das cores” (SACKS, 2003, p. 57). Ocorre que apesar da valiosíssima contribuição de Newton, somente no século XIX, com Goethe, e posteriormente com outros estudiosos, os fenômenos variantes das percepções humanas de cor começaram a ser estudados, estudos esses que culminam com as contribuições de Albers e Itten referentes aos contrastes cromáticos.
Em virtude da importância dos contrastes cromáticos, a presente autora reitera aqui o pequeno valor de “listinhas” de cores para o estudo cromático aplicado à comunicação visual, tão frequentemente encontradas. Além de não levarem em conta os fenômenos das interações das cores, listas absolutas de cores isoladas frequentemente carregam significados culturais e simbólicos (que se enquadrariam como variáveis Int) misturados com características perceptivas inerentes à variável Org.
A importância da aplicação dos contrastes cromáticos é vital nas diversas esferas da comunicação visual. No design de embalagens de alimentos, por exemplo, PEREIRA (2007) afirma que os contrastes de cor contribuem para identificar o conteúdo, destacar visualmente a embalagem, caracterizar o padrão visual da categoria, diferenciar variedades do produto, sugerir atributos ao produto embalado, fazer apelo ao apetite, identificar a marca, diferenciar-se dos concorrentes, unificar uma linha de produtos, enfatizar informações na embalagem, proporcionar legibilidade, compor a estrutura gráfica do design e diferenciar ou unificar partes da embalagem estrutural.
Apesar da importância dos contrastes cromáticos aqui reiterada, na prática da comunicação visual, infelizmente, ainda são pouco aproveitados. Por exemplo, MARIANO (2007) aponta o pouco aproveitamento dos contrastes cromáticos em embalagens transparentes. Tratando-se de embalagem transparente, a cor do produto é visível, colaborando com o reconhecimento do produto pelo consumidor. Entretanto, segundo a autora, a relação cromática que se estabelece com a embalagem é mal utilizada. No caso da aplicação de cores em embalagens em geral (não somente transparentes), MESTRINER (2008) afirma que “a cor é muito importante porque é a mais eficiente forma de discriminação que existe” (MESTRINER, 2008, p. 45).
Muitas empresas, vislumbrando o potencial perceptivo das cores, investiram muito em cromatismo. JOHNSON (2005) apresenta a complexidade e refinamento das pesquisas para aplicação de cores em automóveis e reitera a importância desse investimento: é bem provável que o consumidor tenha escolhido seu carro pela cor. FRANK (2002) relata que a empresa BAYER fez um grande investimento de produção de novas tecnologias em plásticos coloridos. Para tanto, realizou um grande evento em Nova York com a presença de mais de 150 designers, incluindo Pólo Ralph Lauren e Náutica, com o intuito de que a empresa se tornasse referência em cor para os designers. NAUGHTON (2005) apresenta o alto investimento da empresa Lancôme em seu visual merchandising, assemelhando o display de seus estojos de sombras de olho a uma paleta de artista, valorizando o aspecto cromático.
Estudos de Comunicação Cromática Relativos a Fenômenos Interpretativos (Int)
Conforme descrito anteriormente, a variável V3 está relacionada com a elaboração de V2 a outras áreas do cérebro. Essa variável refere-se às abordagens “top-down” da psicologia sobre percepção visual. É nessa fase da percepção que ocorrem as cascatas neurais, que recebem interferências de motivação, emoção, personalidade, cultura, conhecimento, etc. É esse aspecto da percepção que propicia variação e interpretações em design e arte, e que no modelo proposto, recebe o nome de processos interpretativos da percepção (Int). OGDEN E RICHARDS (1972) citados por BLIKSTEIN (1983) explicam esta complexidade interpretativa ao separar os significados dos significantes e referentes, permitindo uma ampla variação de significados para um mesmo objeto ou estímulo sensorial.
No triângulo básico de Ogden e Richards estão relacionados (1) significante, que pode ser entendido como a experiência verbal, (2) referente, remetendo aos estímulos sensoriais; ao objeto real e (3) significado, representando a unidade cultural. O entendimento do triângulo semiótico de Ogden & Richards permite compreender a ampla gama de possíveis significados e interpretações para um mesmo referente ou estímulo visual. Conforme apresentado por Barthes:
“Em linguística, a natureza do significado deu lugar a discussões sobretudo referentes a seu grau de ‘realidade’; todas concordam, entretanto, quanto a insistir no fato de que o significado não é uma ‘coisa’,mas uma representação psíquica da ‘coisa’.” (BARTHES, 1964, p. 57).
Os processos interpretativos são o que diferencia as percepções individuais. Se mostrarmos uma imagem a dez pessoas diferentes, obteremos dez diferentes pontos de vista sobre essa imagem. São as variáveis culturais, de aprendizado, filosóficas, ideológicas, entre outras, atuando sobre os estímulos visuais elaborados no córtex. Esse fator propicia a infinidade de possibilidades da variável Int.
Cor e Cultura
Apesar de ainda não haver estudos neurológicos aprofundados a respeito da variável Int no cérebro, há sim diversos estudos a respeito das interpretações das cores em diferentes culturas. Espera-se que em um futuro próximo tais estudos possam ser reunidos com as descobertas neurológicas por vir. No momento, entretanto, podemos reunir estudos culturais para tentar compreender elementos da comunicação cromática.